Espiritualidade em Cardiopatas
Sexta feira, semana passada, aula de Cardiologia.
Como era a primeira semana de aula, o professor fez apenas algumas revisões sobre assuntos que aprendemos em semestres passados, entre eles propedêutica cardiovascular. Dados de anamnese - um item importante a perguntar: espiritualidade.
Segundo ele e alguns artigos citados, é muito importante perguntar sobre a religião do paciente. Não por causa de testemunhas de Jeová, que não aceitam transfusões de sangue, mas porque aqueles que possuem alguma religião aceitam melhor o prognóstico.
E aí eu caio em algumas contradições. Não é porque eu não tenho religião que eu não aceitaria melhor um mau prognóstico, muito pelo contrário. Religiosos gostam de dizer que “deus escreve certo por linhas tortas”, gostam de falar que se tem alguma doença, é porque deus quis. Claro, foi porque deus quis e não porque o paciente fumou a vida inteira, foi alcóolatra, abusou de uma má alimentação. Muito melhor culpar os outros que assumir a culpa. Não quero generalizar dizendo que todos os crentes possuem maus hábitos de vida, por isso vou me ater mais à parte após o diagnóstico.
Digamos que uma pessoa recebe a notícia que possui alguma cardiopatia com um mau prognóstico:
- A reação de um crente seria rezar, confiar em deus, acreditar que o melhor está por vir, que o céu está lhe aguardando. Ou o crente poderia entrar em crise pensando que deus é muito mau e que ele e sua família não mereciam isso, poderia se revoltar contra deus. A primeira opção é mais plausível.
- Um cético aceita os fatos mais racionalmente. Pode ver como os processos fisiopatológicos foram transcorrendo e que não foi “porque deus quis”. Talvez sinta falta daquele suporte emocional que só uma sessão de descarrego possa proporcionar e se converta para alguma religião, no entanto acho mais provável a pessoa continuar com a racionalidade. Pode aproveitar os últimos dias de sua vida meio perturbado ou aproveitando como nunca - depende da pessoa.
- Um sem religião, que não acredita em deus mas também não é extremista pode aceitar de uma forma mais tranquila. Aceitando os processos da doença e os processos ‘espirituais’. Um meio termo entre o cético e fanático.
Não podemos dizer que religiões são inúteis. De certo modo ajuda algumas pessoas a superar determinadas patologias - desde depressão a câncer. No meu grupo de atendimento tem uma garota que é católica (daquelas que frequentam a missa 2x por semana e vai em grupos de jovens), toda vez que surgia uma oportunidade ela falava para algum paciente depressivo ouvir a rádio da igreja ou ir na missa que melhoraria. Não digo que ela estava errada, de certo modo auxilia as pessoas - claro que pagando por um preço, a liberdade espiritual. Como o atendimento é pelo SUS, a maioria dos pacientes vive em condições precárias e têm pouco ou nenhum estudo. Para eles o conforto vem através de uma alienação espiritual, acreditando cegamente nas palavras de algum fanático. Esse tipo de pessoa não possui opção porque não oferecemos opção. Num país de miseráveis não há como ir contra o sistema religioso se ele oferece uma base de fácil acesso e que não necessite de pensamento ou estudo - é um abrigo para a população humilde. Infelizmente é a realidade. Pior ainda: eu não faço nada para impedir, continuo alimentando o ciclo.
*O que foi dito acima não foi comprovado cientificamente, são alguns pensamentos apenas. Se bem que é uma bela idéia para um projeto de pesquisa - é uma pena que teria que ser estudo de coorte (aí entra o capitalismo e suas imposições monetárias).
Domingo, 2 Março, 2008 em 11:56
Interessante sua linha de pensamento sobre religião, ainda mais aplicada na sua futura profissão (pelo que entendi, ainda é estudante). É difícil, em um tema tão complexo e “pessoal” como esse, uma pessoa ter uma posição religiosa e não dar nenhuma alfinetada em qualquer religião que não seja a dela. É difícil abordar a questão religiosa respeitando completamente aquela que não seja a sua.
Você conseguiu isso. Fico pensando, como nunca visitei seu blog antes? Hehehehehheeh…
Grande abraço.
Domingo, 2 Março, 2008 em 18:23
A área da saúde lida diretamente com a forma de pensar do ser humano (e sim, sou estudante). Continuo com uma posição crítica e contrária com relação a religiões, mas tive que me adaptar para sobreviver ao meio. Ou, conforme o Principia Caótica: “usar as religiões como ferramentas, não como fins”
Quanto ao blog eu sempre tenho a impressão que todas as postagens anteriores são horríveis e só as recentes valem a pena - talvez o resultado de uma constante adaptação ao meio. =]
Domingo, 2 Março, 2008 em 18:42
Tenho sempre essa impressão, também, na cabala santaumniana, hehehehe.