Capítulo 1
O céu pela manhã estava acinzentado, semelhante a uma pintura de giz de cera feita por uma criança que possui apenas uma cor, numa tentativa frustrada de colocar diversos tons para animar o desenho. Caía uma fina chuva, que apenas o ser com o tato mais apurado seria capaz de sentir e apreciá-la. Uma onda de alegria e satisfação tomou conta do corpo de Aleph quando as primeiras gotas acariciaram sua face. Não sabia o porquê, simplesmente adorava os dias nublados tanto quanto os ensolarados. Talvez por ser diferente, marcado como um dos piores e destinado a ser humilhado por toda sua vida. Nada daquilo importava no momento, o que mandava era aquela sensação maravilhosa. Seus olhos castanhos miraram o céu com profunda admiração e num ato involuntário estendeu sua mão numa tentativa de tocá-lo. Apesar da estatura dentro da média, Aleph parecia maior que o normal. Possuía um porte altivo e seu cabelo castanho claro ondulado acentuava essa característica. Em dias assim Aleph faz algo muito arriscado para alguém em sua situação: se perde em pensamentos. Estava extremamente entretido que não notou um vulto se aproximando de forma espalhafatosa.
- Hoje o céu está mais feio que ontem. Eu gostaria de ter ficado em casa - resmungou Jonas Ahara, como se tivesse ficado a manhã inteira caminhando ao lado do colega.
Aleph não conseguiu expressar surpresa com aquela aproximação repentina, simplesmente assentiu com a cabeça. Não entendia como Jonas chamava aquele dia de feio. Era seu colega no módulo de modificação de ambiente no Ensino Para Inclusão na Sociedade (EPIS) e diferente de Aleph, Jonas lutava contra sua condição de ser o pior de todos. Muito provavelmente comentou aquilo porque era mais uma das regras não escritas: falar e se sentir mal quando o tempo está nublado, frio e chuvoso.
Jonas Ashara era o típico garoto brevelíneo de família com elevado status social. Sempre fora alimentado com mamíferos marinhos gigantes, recusando outros tipos de comida por motivos inexplicáveis. Seus pais sempre incentivaram seu desenvolvimento apesar de sua condição idêntica à Aleph. O moreno obeso de olhos negros e face rosada não desistia facilmente de seus objetivos e sabia que algum dia seria grande - e não só no tamanho.
Percebendo que ia se atrasar caso acompanhasse o passo lento do amigo, Jonas começou a correr, desafiando todas as leis que dizem que pessoas obesas não possuem fôlego para correr. Aleph nem percebeu quando o outro sumiu de vista - queria adiar até o último momento o início daquele dia. Em algum lugar sentia que teria uma terrível semana pela frente, talvez a pior de sua vida.
Entrou na sala do mesmo modo que alguém que está horas adiantado para algum compromisso entraria. Cerrou os olhos inutilmente, conseguia sentir na pele o olhar ameaçador dos colegas e professor, porque todos sabiam que Aleph estava atrasado - como na maioria das vezes.
- Nem precisava ter vindo hoje, sabe muito bem. Se fosse para vir, poderia ter chegado no horário, como seus colegas. É a terceira vez que tenho que dar essa notícia para você, Aleph. Reprovou novamente no módulo de modificação do ambiente. - vociferou o professor, dando um tempo para tomar fôlego - Seu pedido não foi aprovado e como sabe muito bem, a reprovação é automática. Mas não se preocupe, você terá uma nova chance… ano que vem. - soltou uma risadinha sarcástica, acompanhado por metade da turma.
- Desculpe-me pelo atraso. Não acontecerá novamente.
Aleph já sabia daquela notícia, era previsível. Só restava para ele aceitar e calar-se. Só que o professor não queria deixá-lo em paz.
- Você deve conhecer sua história, com certeza. Devo admitir que é um exemplo para todos aqueles que tiveram o mesmo destino, seus esforços para ser o pior em tudo são realmente fascinantes.
Não havia o que responder, não podia responder nada. Apenas assentiu com a cabeça e murmurou um “É…”. Aquela história o perseguia há muito tempo. Por mais simples que os eventos fossem, Aleph em sua ignorância não conseguia compreender que ele possuía um destino e não podia lutar contra ele, muito menos reclamar de sua condição. Muito pelo contrário, ele deveria sentir-se extremamente grato. Talvez sua história fosse a única coisa que Aleph conhecia sobre a comunidade em que vivia, mas no estágio em que nos encontramos é completamente irrelevante.
Certo dia GY percebeu que estava entediado. E como alguém que está no poder não pode se entediar, decidiu criaria uma profecia para ver como as pessoas iriam reagir. Ele juntou alguns casais e disse:
“Vocês terão dois filhos, um será excepcional, o outro irá trazer vergonha para a família e sociedade”
Naquela época a mortalidade infantil cresceu acentuadamente por motivos ainda obscuros. Na família de Aleph, a diferença entre ele e a irmã eram enormes. Ela era boa em tudo que fazia, jamais havia reprovado, seguia as regras impostas pelo GY sem reclamar. Aleph não sabia absolutamente nada sobre a sociedade em que vivia. Sua mente limitada não tinha espaço para regras, por mais simples que elas fossem. Era humilhado de todas as formas que uma sociedade que não permitia humilhação possibilitava. Ele não tinha nada mais o que fazer senão aceitar. Se GY disse, estava dito.
Nos primeiros minutos Aleph já tinha feito todas as anotações que sabia que deveria fazer naquela aula, era a triste experiência da reprovação. Sentado próximo à janela, passou o resto da manhã observando a chuva parar, recomeçar, parar e recomeçar novamente. Obviamente se perdeu em pensamentos. Não notou quando chegou a pensar que poderia ter algo a ver com as paradas abruptas da chuva, uma façanha completamente impossível de ser realizada. As horas se arrastavam, a refeição da metade do dia foi horrível e humilhante como sempre e no segundo período as horas sequer conseguiam se arrastar.
Ao fim do dia Jonas aproximou-se de Aleph, colocou o braço por cima do ombro do amigo e tentou acalmá-lo.
- Você sabe que tem potencial. Pode tentar ano que vem novamente, desta vez irei te ajudar. Venha amanhã para ver como todos fazem, depois basta imitar.
- Eu virei amanhã somente porque você fará a prova, se dependesse de mim, eu desistia de uma vez. Não dá, eu não tenho jeito!
- Só porque eles falaram que você não consegue não significa que você não conseguirá. Nós podemos tanto quanto os outros.
- Não, não podemos! GY nunca erra, eu estou destinado a ser o pior, nem sei por que estou aqui.
- Acalme-se. Não é tão difícil quanto eles dizem, é só escolher algo simples e seguir os manuais.
-Manuais, manuais! Você já leu os manuais? Nem sei por que tem esse módulo, é totalmente incompatível com o que tem nos manuais! - murmurou num tom agressivo na orelha do colega.
Jonas encarou o amigo assustado. Aleph jamais agira daquele jeito. Sabia que se ele continuasse assim sua situação iria piorar ainda mais. Não teve tempo para alertá-lo, o garoto começou a correr para algum lugar, sem rumo.