Caminhada no umbral

Sábado, 28 Junho, 2008

Como sou uma pessoa “levemente” sem noção e não pretendo publicar o Projeto 1 (ou: Aleph, Aquele que Manipulou Deus) aqui, colocarei uns trechos relevantes que trazem alguns significados subliminares. Para entender não é necessário saber o que se passou antes, é irrelevante. A única coisa que tem probabilidades ínfimas de ser relevante são as conclusões que podemos tirar do texto - mas eu nunca simpatizei com morais de histórias.

(…) Segundos após descobriu a respostas para tal questionamento, quando começaram a descer por uma escada subterrânea. Atravessaram um corredor escuro, frio e úmido que ficava abaixo da superfície. A breve caminhada estava cansando Aleph. Seus pés não queriam levá-lo adiante. Aquele corredor parecia ser um local aconchegante, onde ele poderia descansar pela primeira vez após ter saído de casa. Quando viu que a escuridão estava diminuindo, parou. Não conseguia seguir adiante, não queria. Algo o esperava depois do túnel. Era algo novo, implicava em mudanças. Aleph tinha medo de mudanças. Naquela escuridão sentia que poderia fazer tudo que quisesse, era poderoso e único. As mesmas sensações que teve quando presenciou a concretização de seu desejo de vingança com Eliseu começaram a surgir. Havia parado, não conseguia caminhar. Estava preso em si, preso em suas sensações.

- Não passa de uma criança! Sempre achei que tu eras um inútil, agora tenho certeza.

Forçadamente libertou-se de sua prisão. Estava sendo arrastado para frente, tropeçando em seus pés. Aleph percebeu que as sensações anteriores não passavam de ilusões. Ele havia acordado. Instantaneamente se recompôs e seguiu adiante com passos firmes. Subiu os vinte e dois degraus com confiança, preparado para a iluminação do novo ambiente. (…)

Jamais pensei que escreveria algo assim. Confesso que a postagem se encaixaria mais no estilo pão de queijonline, mas prefiro o ambiente (e leitores) deste blog.


Caminho

Sexta-Feira, 30 Maio, 2008

Final de semana passado, meu servidor fala sobre algo que vivenciou/presenciou.

“Seguiram reto por duas quadras, viraram à direita, seguiram por mais três quadras e viraram à esquerda.”

Há o que melhorar. Poderiam ter seguido por 3 quadras e depois por 2 (prefiro assim). O fato de terem trilhado primeiro o caminho da direita e depois o da esquerda é irrelevante (poderia ter sido o inverso). Claro, sempre há experiências à somar, estar andando já é considerado um progresso. Mas faltou um pequeno grande detalhe: o final foi marcante.

Conseguiu atingir o caminho do meio, acabou se encontrando. Muito mais difícil que imaginava, mas conseguiu se achar. Às vezes procuramos andar por lugares que os outros já andaram, parece ser muito mais fácil. Nos perdemos, andamos em círculos. Apenas aqueles que persistem conseguirão algum dia encontrar seu caminho. E assim foi com ele.

*E depois disso eu penso como uma frase tem significado. Provavelmente há muitos autores que fizeram o mesmo que pretendo fazer. Bizarro. Uma frase, milhares de interpretações. Para cada interpretação, você precisa ter vivenciado ou ter diferentes “pré-requisitos”.


Capítulo 1 - Projeto 1

Segunda-feira, 7 Abril, 2008

Capítulo 1

O céu pela manhã estava acinzentado, semelhante a uma pintura de giz de cera feita por uma criança que possui apenas uma cor, numa tentativa frustrada de colocar diversos tons para animar o desenho. Caía uma fina chuva, que apenas o ser com o tato mais apurado seria capaz de sentir e apreciá-la. Uma onda de alegria e satisfação tomou conta do corpo de Aleph quando as primeiras gotas acariciaram sua face. Não sabia o porquê, simplesmente adorava os dias nublados tanto quanto os ensolarados. Talvez por ser diferente, marcado como um dos piores e destinado a ser humilhado por toda sua vida. Nada daquilo importava no momento, o que mandava era aquela sensação maravilhosa. Seus olhos castanhos miraram o céu com profunda admiração e num ato involuntário estendeu sua mão numa tentativa de tocá-lo. Apesar da estatura dentro da média, Aleph parecia maior que o normal. Possuía um porte altivo e seu cabelo castanho claro ondulado acentuava essa característica. Em dias assim Aleph faz algo muito arriscado para alguém em sua situação: se perde em pensamentos. Estava extremamente entretido que não notou um vulto se aproximando de forma espalhafatosa.

- Hoje o céu está mais feio que ontem. Eu gostaria de ter ficado em casa - resmungou Jonas Ahara, como se tivesse ficado a manhã inteira caminhando ao lado do colega.

Aleph não conseguiu expressar surpresa com aquela aproximação repentina, simplesmente assentiu com a cabeça. Não entendia como Jonas chamava aquele dia de feio. Era seu colega no módulo de modificação de ambiente no Ensino Para Inclusão na Sociedade (EPIS) e diferente de Aleph, Jonas lutava contra sua condição de ser o pior de todos. Muito provavelmente comentou aquilo porque era mais uma das regras não escritas: falar e se sentir mal quando o tempo está nublado, frio e chuvoso.

Jonas Ashara era o típico garoto brevelíneo de família com elevado status social. Sempre fora alimentado com mamíferos marinhos gigantes, recusando outros tipos de comida por motivos inexplicáveis. Seus pais sempre incentivaram seu desenvolvimento apesar de sua condição idêntica à Aleph. O moreno obeso de olhos  negros e face rosada não desistia facilmente de seus objetivos e sabia que algum dia seria grande - e não só no tamanho.

Percebendo que ia se atrasar caso acompanhasse o passo lento do amigo, Jonas começou a correr, desafiando todas as leis que dizem que pessoas obesas não possuem fôlego para correr. Aleph nem percebeu quando o outro sumiu de vista - queria adiar até o último momento o início daquele dia. Em algum lugar sentia que teria uma terrível semana pela frente, talvez a pior de sua vida.

Entrou na sala do mesmo modo que alguém que está horas adiantado para algum compromisso entraria. Cerrou os olhos inutilmente, conseguia sentir na pele o olhar ameaçador dos colegas e professor, porque todos sabiam que Aleph estava atrasado - como na maioria das vezes.

- Nem precisava ter vindo hoje, sabe muito bem. Se fosse para vir, poderia ter chegado no horário, como seus colegas. É a terceira vez que tenho que dar essa notícia para você, Aleph. Reprovou novamente no módulo de modificação do ambiente. - vociferou o professor, dando um tempo para tomar fôlego - Seu pedido não foi aprovado e como sabe muito bem, a reprovação é automática. Mas não se preocupe, você terá uma nova chance… ano que vem. - soltou uma risadinha sarcástica, acompanhado por metade da turma.

- Desculpe-me pelo atraso. Não acontecerá novamente.

Aleph já sabia daquela notícia, era previsível. Só restava para ele aceitar e calar-se. Só que o professor não queria deixá-lo em paz.

- Você deve conhecer sua história, com certeza. Devo admitir que é um exemplo para todos aqueles que tiveram o mesmo destino, seus esforços para ser o pior em tudo são realmente fascinantes.

Não havia o que responder, não podia responder nada. Apenas assentiu com a cabeça e murmurou um “É…”. Aquela história o perseguia há muito tempo. Por mais simples que os eventos fossem, Aleph em sua ignorância não conseguia compreender que ele possuía um destino e não podia lutar contra ele, muito menos reclamar de sua condição. Muito pelo contrário, ele deveria sentir-se extremamente grato. Talvez sua história fosse a única coisa que Aleph conhecia sobre a comunidade em que vivia, mas no estágio em que nos encontramos é completamente irrelevante.

Certo dia GY percebeu que estava entediado. E como alguém que está no poder não pode se entediar, decidiu criaria uma profecia para ver como as pessoas iriam reagir. Ele juntou alguns casais e disse:

“Vocês terão dois filhos, um será excepcional, o outro irá trazer vergonha para a família e sociedade”

Naquela época a mortalidade infantil cresceu acentuadamente por motivos ainda obscuros. Na família de Aleph, a diferença entre ele e a irmã eram enormes. Ela era boa em tudo que fazia, jamais havia reprovado, seguia as regras impostas pelo GY sem reclamar. Aleph não sabia absolutamente nada sobre a sociedade em que vivia. Sua mente limitada não tinha espaço para regras, por mais simples que elas fossem. Era humilhado de todas as formas que uma sociedade que não permitia humilhação possibilitava. Ele não tinha nada mais o que fazer senão aceitar. Se GY disse, estava dito.

Nos primeiros minutos Aleph já tinha feito todas as anotações que sabia que deveria fazer naquela aula, era a triste experiência da reprovação. Sentado próximo à janela, passou o resto da manhã observando a chuva parar, recomeçar, parar e recomeçar novamente. Obviamente se perdeu em pensamentos. Não notou quando chegou a pensar que poderia ter algo a ver com as paradas abruptas da chuva, uma façanha completamente impossível de ser realizada. As horas se arrastavam, a refeição da metade do dia foi horrível e humilhante como sempre e no segundo período as horas sequer conseguiam se arrastar.

Ao fim do dia Jonas aproximou-se de Aleph, colocou o braço por cima do ombro do amigo e tentou acalmá-lo.

- Você sabe que tem potencial. Pode tentar ano que vem novamente, desta vez irei te ajudar. Venha amanhã para ver como todos fazem, depois basta imitar.

- Eu virei amanhã somente porque você fará a prova, se dependesse de mim, eu desistia de uma vez. Não dá, eu não tenho jeito!

- Só porque eles falaram que você não consegue não significa que você não conseguirá. Nós podemos tanto quanto os outros.

- Não, não podemos! GY nunca erra, eu estou destinado a ser o pior, nem sei por que estou aqui.

- Acalme-se. Não é tão difícil quanto eles dizem, é só escolher algo simples e seguir os manuais.

-Manuais, manuais! Você já leu os manuais? Nem sei por que tem esse módulo, é totalmente incompatível com o que tem nos manuais! - murmurou num tom agressivo na orelha do colega.

Jonas encarou o amigo assustado. Aleph jamais agira daquele jeito. Sabia que se ele continuasse assim sua situação iria piorar ainda mais. Não teve tempo para alertá-lo, o garoto começou a correr para algum lugar, sem rumo.


Prólogo - Projeto 1

Terça-feira, 18 Março, 2008

    Tempo e espaço sempre serão totalmente irrelevantes. Passado e futuro não passam de histórias de auto-ajuda criadas para limitar a diversão do presente. Apague de sua mente tudo que te ensinaram, apenas siga o fluxo das palavras como um pássaro que voa pela primeira vez.

   Voar pela primeira vez é difícil, principalmente num mundo completamente conhecido. Viajando pelo mundo da mente, certa vez ouvi uma conversa aleatória entre as duas pessoas mais aleatórias que é possível imaginar. A conversa ajudará em seu primeiro vôo.

- Vivemos numa prisão ilusória, não há liberdade.

- Sim, estamos presos. Mas há liberdade.

- Como?

- Eu sou livre, posso sair da prisão quando quiser, digo o mesmo sobre você.

- Então por que não sai?

- É óbvio, aqui é divertido demais.

- É deprimente, não divertido.

- Quando se é amigo do carcereiro tudo muda.

- Entendi, então basta fazer amizade com ele?

- Não. Apesar de saber recentemente, sou amigo de infância dele. Sempre fui seu favorito e provavelmente o substituirei algum dia.

- Como isso?

- Não sei, apenas é. Jogue fora este seu impulso de querer saber o porquê de tudo.

- Para você é fácil falar, basta querer algo que ganha, todos aqueles que tentam te machucar se dão mal e você nunca é punido. Só me resta tentar entender como as coisas são.

- Odeio quando você fica se lamentando. Sabe muito bem que minha vida nem sempre foi assim. Você só assume o papel de coadjuvante se quiser.

- Acha que eu não gostaria de ser você?

- Aí está seu erro. Você deveria querer ser como você. O fato de chegar até aqui é uma prova de suas vitórias.

- Fiz o que qualquer um faria, ainda me considero um ser normal.

- Jovem, esqueça os outros, seja mais orgulhoso. E vê se para de pensar que é normal. Você é tudo, menos normal.

   Um sorriso foi desenhado simultaneamente no rosto dos dois seres aleatórios. Viraram as costas e seguiram por caminhos opostos naquela escuridão, ignorando completamente o odor de podridão e morto-vivos rastejando no solo tentando agarrar seus calcanhares.


Aleph, aquele que manipulou D-us

Sábado, 8 Março, 2008
     “No Zohar tem uma bonita lenda, excessivamente longa, mas eloqüente, sobre cada letra do alfabeto, e como Beth, a segunda letra do alfabeto, foi usada como a primeira letra da primeira palavra da bíblia - Bereshith, significando ‘no início’.”

      Obviamente não estamos interessados nisso. Beth acabou ganhando o Oscar de melhor atriz coadjuvante, Aleph roubou a cena. Contarei a história de como Aleph, de forma instintiva e natural, acabou manipulando D-us (é hebraico, logo devemos respeitá-los: você não pode falar isso). Se ele tivesse algum treinamento teria conseguido tudo, mas infelizmente ele não me conhecia na época.

     “Quando o Ser Divino desejou criar o mundo, todas as letras apareceram ante Sua presença em ordem contrária.”

     E uma a uma foram puxando o saco de D-us, para que ele criasse o mundo a partir delas, só que todas receberam um não como resposta. Restava apenas Beth e Aleph.

    “Então veio Beth e disse: ‘Crie o mundo a partir de mim porque eu sou a letra inicial de Beracha (benção) e através de mim tudo será abençoado, no mundo superior e inferior.’  ‘Verdade, Beth,’ disse D-us, ‘Eu certamente irei criar o mundo a partir de ti’.

     “Ouvindo essas palavras, Aleph continuou em seu lugar e não surgiu ante a presença de D-us, que exclamou ‘Aleph! Aleph! Por que não veio até mim como as outras letras fizeram?’ Então respondeu Aleph: ‘Senhor e monarca do universo, é porque eu vi Beth ser aceita e todas as outras letras voltaram como elas vieram, sem sucesso. Então por que eu deveria aparecer em sua presença, uma vez que o senhor já deu a Beth o ótimo e precioso presente que todos nós almejamos e desejamos? Além do mais, não poderia o monarca do Universo dar e retirar seus presentes para um sujeito e dar a outro.’ A essas palavras D-us respondeu: ‘Aleph! Aleph! Você será a primeira de todas as letras e minha unidade será simbolizada somente por você. Em todas as idéias e conceitos humanos ou divinos, em todo ato e obra inicial, levada até o fim e completa, em tudo isso você será o primeiro, o início.’

*Retirado, traduzido e adaptado por mim, do livro “The Complete Golden Dawn Sistem of Magick”, de Israel Regardie.

 

 

     Como é possível perceber na lenda, apesar de Beth ser aceita, Aleph usou de uma estratégia muito conhecida para ganhar algo. Eu ainda acho que o ‘presente’ de Aleph foi melhor que o de Beth. Não pelo fato de simbolizar D-eus, mas sim por ser a primeira letra. E depois, no estado atual desse planeta, eu não teria orgulho em dizer que ele foi criado a partir de mim.

     Li a história nas férias, e quando o fiz percebi que a escolha do nome Aleph para o personagem principal do meu projeto 1 (trecho pode ser lido aqui) foi melhor que o esperado. O mais engraçado é que o personagem e a letra possuem algo em comum: ambos manipularam D-us. Na época eu estava voltando a estudar Kaballah, por isso tinha uma pequena noção de hebraico e alguns significados das letras. Para quem não sabe: projeto 1 é o nome do livro que estou escrevendo, é um título temporário porque até agora não veio em mente nenhum nome interessante. Não publico no blog porque eu tenho um sério problema que é ficar mudando toda hora o que eu escrevi - desde dezembro - reiniciando diversas vezes.